Além do "Monstro": O que a ala isolada dos crimes sexuais nos ensina sobre a nossa própria sociedade
Recentemente, a equipe do Instituto Guatá realizou uma visita técnica à Penitenciária Parada Neto, em São Paulo. Diferente do imaginário caótico que a maioria das pessoas tem sobre o sistema prisional, fomos surpreendidos por uma ala isolada específica onde ficam os detentos por crimes sexuais — extremamente organizada, estruturada e respaldada por uma equipe pedagógica e psicológica comprometida. Encontramos ali profissionais dedicados a criar projetos de ressocialização e, acima de tudo, uma abertura institucional valiosa para que possamos somar forças e levar nossa metodologia para dentro daquelas paredes.
Essa experiência, no entanto, escancara um contraste profundo com o que a população geral pensa do lado de fora. No senso comum, a resposta para crimes sexuais é quase sempre o clamor pela eliminação: a ideia de que aqueles homens são "monstros", "aberrações" que devem apodrecer no cárcere ou sofrer punições severas para que o problema desapareça.
Mas a verdade que evitamos encarar é muito mais desconfortável.
Ao isolarmos o crime sexual como se ele fosse apenas a conduta de meia dúzia de psicopatas, perdemos a visão sistêmica da nossa sociedade. A diferença cruel entre o homem que está naquela ala e milhares de homens que caminham livremente pelas ruas, muitas vezes, é apenas o fato de que os segundos nunca foram denunciados, descobertos ou capturados pelo sistema de justiça. Pior: muitos sequer têm consciência de que suas atitudes diárias também são formas de violência de gênero.
Normalizamos abusos, silenciamentos e dinâmicas de poder ao longo de séculos. Acreditar em soluções isoladas e simplistas — como se o encarceramento de alguns indivíduos purificasse a sociedade — nos cega para um adoecimento coletivo e para os vícios estruturais que permeiam a vida de praticamente toda a população. O que o Instituto Guatá defende, ao propor ações dentro e fora do ambiente prisional, não é a relativização da responsabilidade e gravidade do crime, mas o entendimento de que a violência sexual não é uma exceção do sistema: ela é um sintoma extremo de uma cultura patriarcal que todos nós, coletivamente, precisamos desconstruir.





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