A Conta Não Fecha: crimes sexuais e a escalada do movimento ultraconservador
O IPEA estima que aconteçam cerca de 822 mil casos de estupro por ano no Brasil (aproximadamente 2 por minuto).
Desse total esmagador, o Fórum Brasileiro de Segurança Pública aponta que apenas cerca de 87,5 mil casos são registrados formalmente pela polícia. Ou seja: apenas 10% dos casos chegam ao conhecimento do Estado.
Quando olhamos para o sistema prisional (dados da SENAPPEN), a população carcerária total do país ultrapassa as 940 mil pessoas. Desse montante, a porcentagem de homens presos por crimes sexuais gira em torno de 5% a 6% do sistema (cerca de 45 a 50 mil homens).
Os dados desse funil nos levam a uma conclusão matemática e social: o sistema está completamente adoecido e a resposta puramente penal é uma ilusão física.
Se tentássemos encarcerar todos os autores de violência sexual estimados no país, precisaríamos de centenas de novos presídios por ano. Não há espaço físico, orçamento ou lógica social que sustente o encarceramento em massa como única política pública de segurança.
É aqui que a contradição do discurso público se torna mais evidente e perversa, e onde o pensamento da antropóloga Rita Segato se faz urgente.
Em suas pesquisas sobre a mente de homens condenados por crimes sexuais, Segato desconstrói o mito do 'monstro' ou do 'maníaco'. Ela nos mostra que o agressor sexual não é um desviante da norma, mas, de certa forma, um 'bom aluno' do patriarcado.
A violência, para a autora, funciona como um mandato de masculinidade onde o homem agride para provar a si mesmo e aos outros homens o seu poder, a sua soberania e o seu controle sobre o corpo feminino.
Ao mesmo tempo em que movimentos sociais tentam combater a violência de gênero, testemunhamos a ascensão de discursos ultraconservadores e da chamada 'onda redpill' nas redes sociais. Esse ecossistema digital propaga uma cartilha retrógrada que empurra a mulher de volta para um lugar de submissão e passividade, enquanto valida o ressentimento e a agressividade masculina como respostas legítimas.
Curiosamente, são muitas vezes esses mesmos setores hiperconservadores que inflamam o debate público com o lema 'bandido bom é bandido morto', exigindo a eliminação física ou a castração de estupradores.
A conta simplesmente não fecha.
A mesma cultura que alimenta e monetiza o machismo diário nas redes, nas famílias e no cotidiano é a que clama pelo linchamento público do agressor quando o crime ganha os holofotes.
Como pontua Segato, o punitivismo puro serve apenas como um anestésico para a responsabilidade coletiva. Pune-se o executor da violência para não ter que mexer na estrutura que continua a fabricar agressores em escala industrial.





Comentários